sábado, 25 de junho de 2011

Trabalhando em Uma Ambulância

Uma das melhores experiências que tive na vida, em relação a trabalho, foi trabalhar em uma ambulância de resgate por quase três anos. Para quem trabalha ou já trabalhou sabe o quanto esse trabalho marca a vida da gente. São momentos de desespero para a família, de dor e angústia para quem precisa ser socorrido e de uma responsabilidade enorme de quem socorre. Como diriam meus colegas de profissão - Adrenalina pura! 


Vou explicar mais ou menos como funciona o trabalho na ambulância. Ela é equipada para prestar o primeiro atendimento e estabilizar o paciente antes de conduzi-lo ao hospital, ou medicar e estabilizar o paciente em casa até que ele melhore e não precise ser removido. Existem as ambulâncias que são UTI's móveis (USA) onde trabalham um médico, uma enfermeira padrão e um motorista socorrista, com todo material que tem em uma uti de hospital, e tem a básica (USB) que era onde eu trabalhava. Na USB trabalham apenas um motorista socorrista e um técnico em enfermagem e tem todo material para estabilizar o paciente, mas não tem material de entubação e todos aqueles monitores cardíacos com luzinhas apitando e piscando, como na USA. Em cidades maiores como Blumenau, por exemplo, sempre que é acionado uma ambulância, vai a básica, e se o caso for muito grave, é acionada a USA pela básica para ajudar no socorro. Enquanto a USA não chega você tem que estabilizar o paciente e ficar no local até a uti chegar.

Trabalhando na USB após um parto.

Em cidades menores como a minha, você não tem uma USA para chamar se precisar de ajuda. Você tem que se virar sozinho e com o material que tiver. Sim, é pedreira! Mas é aí que entra a experiência que falei no inicio do post. Se você nunca trabalhou em emergência, vai ter que aprender na marra, mas como no meu caso já tinha experiência em emergência, ficou mais fácil, mas não tanto quanto pensei que seria.
Existe uma grande diferença em você receber um paciente todo "empacotado" na porta do Pronto Socorro, só trocá-lo de maca e pronto, do que ter que no meio da rua ajuntar um paciente com politraumatismo (várias fraturas), colocá-lo na maca sem danificar o que já esta quebrado e tentar reduzir o mínimo possível o risco de quebrar outros ossos. Essa foi a pior parte. Aprender tudo o que eu já sabia, só que de outro ponto de vista e acolhimento e ainda por cima, sempre com uma platéia para te analisar e julgar se estás fazendo a coisa certa. Opiniões não faltam quando você faz atendimento em via pública, nem curiosos.

Notem os curiosos de plantão!

Mas com o tempo, muito estudo e muuuuito treinamento com os colegas que tinham mais experiência que eu, fui me adaptando e gostando cada vez mais do serviço, pois você se torna cada vez mais segura e confiante. Você tem que saber fazer o primeiro atendimento de todo o tipo de emergência, desde hipoglicemias, paradas cardíacas, convulsões, traumas e tudo mais o que a sua cabeça está imaginando. Foi uma escola. Um grande aprendizado!

E aí estou eu (a mais baixinha) junto com a equipe de Blumenau.

Alguns de vocês devem estar se perguntando: Se você gostava tanto de trabalhar na ambulância, por que saiu então?
Deixe-me explicar o porque saí da ambulância. Quem trabalha com resgate tem uma vida extremamente estressante. Na época faltavam técnicos para trabalhar, só havia eu e mais um rapaz, quase não dávamos conta de cobrir os  plantões. Ele ainda tinha um segundo emprego. Então eu trabalhava todos os dias doze horas e uma noite sim, uma não, e isso foi por quase um ano. Fazia 36 horas de plantão direto, mas nunca me importei, porque eu adorava o que fazia. E o cansaço foi acumulando, e acabei descuidando da saúde. E aí vocês ja sabem, fiquei doente e tive que me afastar. Isso foi no final de 2009. Faço tratamento até hoje pois desenvolvi câncer de colo de útero, que hoje está em remissão, mas terei que tratar sempre, fazendo acompanhamento médico até sabe Deus quando. Por descuido (deixei de fazer o preventivo por quatro anos) - não façam isso garotas - e com o cansaço acumulado, má alimentação e stress não poderia acontecer outra coisa, somente ficar doente. Hoje tenho conciência que preciso me cuidar primeiro, antes de cuidar de alguém, mas demorou para isso acontecer até porque o meu trabalho sempre foi um prazer para mim, mas  esse prazer me custou vários exames, biópsias e cirurgia. Não vale a pena se esforçar tanto, mesmo que você ame de paixão. A saúde não volta mais. Pense em você sempre em primeiro lugar.

Saudável e muito feliz!

Mas hoje eu me cuido muito mais. Não penso mais em voltar para a ambulância, tenho outros planos para o futuro, que não incluem passeios em alta velocidade, com sirene ligada em busca do próximo paciente passando mal. Mas contarei algumas histórias para vocês de alguns atendimento que me marcaram muito, e me fizeram pensar muito sobre a vida, inclusive sobre a minha, o quão frágil e delicada ela é, mas em outros post, ok?

Bom comecinho de findi...
Bjos!




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